O descanso dos guerreiros... Ana Fonseca da Luz




Maldita sopa de nabiça!
Não suporto sopa de nabiça mas, todas as terças feiras, lá está ela a fumegar no prato branco de risca verde, enquanto o estômago me sobe até à boca, só de pensar naquele paladar verde e picante que eu simplesmente acho intragável.
Os meus companheiros de mesa, sempre os mesmos, desde que demos entrada neste lar de terceira idade, mal vêem a sopa chegar, escangalham-se a rir porque já sabem que vou dizer o mesmo.
- Maldita sopa de nabiça!
Somos 6 e há anos que havíamos prometido, que quando chegasse a hora, a hora da saudade como o meu bom amigo Raul diz, entraríamos todos para o mesmo lar para aí terminarmos os nossos dias, tentando levar o tempo que nos resta neste mundo, de forma risonha e despreocupada apesar do reumático, das cataratas, das perdas de memória e de um sem número de achaques que nos atormentam nesta tão encantadora idade.
Engraçado como a vida se encarregou de nos juntar depois de tantos anos separados, apesar de ligados por uma amizade que sabíamos ser eterna, para que, tal como na adolescência, apreciássemos todos os bocadinhos como se fossem os últimos.
A diferença entre o nosso tempo de “Primavera” e o tempo que vivemos agora no esplendor do nosso “Outono“, é apenas medida por dias a que chamamos inteligentemente de “Verão” e que afinal, nem foram assim tão bem passados, ora por medo de arriscarmos e perdermos ou então, simplesmente, por inércia.
Agora já nada há a perder. Estamos na recta final e já fazemos apostas entre nós, em qual será o primeiro a cortar a meta.
A nossa despreocupação é tal que traz e vira vamos até ao psicólogo que regularmente passa pelo lar, para que nos avalie e nos entupa de comprimidos para dormir.
Mas alguém no seu perfeito juízo, e a dois passos do sono eterno, tem vontade de perder tempo a dormir?
Assim, nós seis somos a alma desta casa e ao mesmo tempo uma chatice para os empregados, porque passamos a vida a jogar cartas, a ler, a declamar poesia e a fumar às escondidas, o que nos dá realmente um prazer sem medidas, já para não falar das noites em que cantamos o fado à desgarrada, no jardim, iluminados apenas pela luz das estrelas.
Até a Maria que nunca tinha pegado num cigarro, senão na adolescência e sempre tinha achado um vício horrível, desatou a fumar para nossa grande alegria.
Continua a achar o sabor horrível mas aqui o nosso lema é “um por todos e todos por um” para o melhor e para o pior.
É um encanto ver-nos descer para o pequeno-almoço todas as manhãs bem cedo. Eu, a Maria e a Graça, nunca descuidamos o visual. Apesar dos 70 anos que carregamos todos os dias, jamais descemos sem passar o baton nos lábios, a laca no cabelo que mantemos sempre impecável, e o perfume como retoque final. Já os nossos amigos, apesar de usarem calças de ganga, rematam sempre a sua toilette com um lenço ao pescoço que lhes dá tanto charme.
Que pena os mais novos não perceberem o tesouro que carregamos dentro de nós…
Que pena só repararem que a nossa cara tem rugas, que já não conseguimos acompanhar o seu passo e que achem ridículo o amor ainda acontecer nesta idade.
Tanto que têm para aprender connosco e não sabem…
Pelo canto do olho e já na salinha de estar onde nos juntamos para partilhar lembranças, tantas e tão boas, reparo que um dos meus queridos amigos, está mais apagado. Encontro-lhe uma sombra no olhar que não é habitual e o meu coração de amiga de toda a vida enche-se de uma tristeza com lágrimas. Sinto-o ausente, distante, como se a vida lhe estivesse a escorrer por entre os dedos e ele deixasse. E não estará?
Pouso a minha mão sobre a dele e tiro-o daquele limbo onde se encontra. Sorri-me e aperta-me a mão com força como se me dissesse “não me deixes ir embora”. Passo-lhe a mão pela cara sulcada por algumas rugas que lhe ficam tão bem como que a dizer-lhe “não estás sozinho”.
Com aquele sorriso, por momentos, deixo-me enganar e acredito que somos eternos.
E lá embarcamos mais uma vez pela estrada da saudade ladeada de alegrias, descobertas, amores e desamores mas principalmente plena desta nossa amizade tão colorida.
Entre um cigarro que é dividido irmãmente pelos seis, para não fazermos muito fumo porque aqui dentro é proibido fumar, acertamos agulhas para o dia seguinte.
- Então amanhã… excursão!
- Ai que horror! Não digas excursão que é tão foleiro, – remato eu porque gosto tanto da palavra excursão como gosto de sopa de nabiças, – diz antes passeio de autocarro…
- Não é a mesma coisa? – pergunta a Graça que dá a última passa no cigarro e se acomoda melhor na cadeira com um traçar de perna que lhe assenta tão bem.
Caem-me mais uma vez os olhos no meu amigo e volto a encontrá-lo de olhar perdido, distante da nossa conversa e da nossa alegria.
Perante o meu silêncio repentino todos os olhos se viram na sua direcção. Há uma espécie de telepatia entre nós que nos alerta para quando um de nós não está bem.
Volto a pousar a minha mão sobre a dele e pergunto-lhe finalmente:
- Mas o que é que tens? Dói-te alguma coisa?
- Pergunta antes se há alguma coisa que não me doa… – responde com o seu bom humor tão característico – ando apenas pensativo, começo a perguntar-me se valeu a pena…
Logo o Raul, cantarola um fado:
“Valeu a pena ter sofrido o que sofri..”
- Não perguntes se valeu a pena. Vale sempre a pena – respondo eu como se fosse dona de todas verdades.
- Não, – diz a Maria – também me pergunto se valeu a pena ter abdicado de tantos sonhos para viver uma realidade que não nos fez felizes. Se valeu a pena tantos sacrifícios para terminarmos as nossas vidas sem ter feito nada…
Caímos todos nos nossos mais profundos pensamentos e vasculhamos as nossas lembranças à procura de um sentido para dar à vida.
O Zé levanta-se entre um ai e um palavrão dito em surdina porque lhe doem as costas e acrescenta.
- Bolas! Cambada de velhos! Para alguma coisa valeu a pena viver. Amámos, tivemos filhos, tivemos maus momentos, eu sei, mas estamos aqui, não estamos? Cada um de nós é uma pequena enciclopédia ambulante. Ora gaita, nem tudo foi mau e além disso, amanhã temos uma excursão ao Oceanário.
Voltamos a ser seis velhos jarretas felizes e de bem com a vida.
De vez em quando é preciso que alguém nos abane para vermos que nem tudo foi mau. Que a vida não é dois dias como diz o velho ditado, mas sim um emaranhado de experiências que todos os dias nos enriquecem.
Chegamos da excursão, que palavra horrível, os homens com dores nas costas e nós com os pés numa lástima porque não abdicamos nunca dos nossos sapatos de salto alto.
Estamos mortinhas por calçar as nossas ricas pantufas mas nem um” aizinho” denuncia o nosso cansaço. Isso é que era bom!
Aos sábados é a nossa noite preferida. Conseguimos movimentar os nossos cordelinhos, para que todas as semanas a nossa sala de estar fosse transformada em sala de baile e pudéssemos dar um pezinho de dança, lembrando assim todas as músicas que fizeram e farão sempre parte das nossas vidas.
A princípio aqui o “pessoal da pesada” achou tudo um perfeito disparate, mas agora é vê-los a contar pelos dedos para ver quando é que é sábado, para assim sentirem o abraço apertado do seu melhor amigo ou da sua melhor amiga. É que nós estamos vivos. Gloriosamente vivos!
Esta noite vamos dançar o tango e a coisa promete ser divertida porque a nossa geração nasceu a dançar SLOWS ou ROCK . Tudo o que saia disso, já é uma desgraça. Mas só que nos faça rir…
Mas nem sempre as coisas correm como queremos. E esta noite um amigo deixou-nos. Ficámos os seis mudos, medrosos, só de pensar que podia ter sido um de nós.
O Tó nem era muito das nossas relações, mas era simpático e muitas vezes partilhou os seus livros comigo porque já nem com óculos conseguia ler. Assim todos nos mobilizámos e todos os dias lhe líamos um bocadinho para que não se sentisse tão sozinho.
É que a solidão dói… Dói fundo! E o Tó não tinha ninguém. Por isso nos encarregámos de lhe fazer mais companhia.
Mas o coração traíu-o durante o lanche e morreu entre um golo de chá e outro, sem que ninguém se apercebesse. Nem nós que estávamos tão pertinho demos pela sua partida.
De qualquer maneira, acho que foi um felizardo em ter ido assim, sem sofrimento e sem fazer ninguém sofrer.
Durante alguns dias andámos pensativos, apagados mas rapidamente nos apercebemos que não tínhamos tempo a perder. Já tínhamos perdido muitos e muitos dias da nossa vida. A morte era incontornável por isso, restava-nos apenas VIVER cada dia como se fosse o último e aproveitar todas as pequenas coisas que a vida nos dava.
Voltámos aos nossos bailes de sábado à noite, às nossas desgarradas e ao psicólogo, porque achavam que estávamos incorrigíveis.
Vieram os filhos e deram-nos lições de moral porque fumar matava…
Porque não podíamos dormir tão pouco….
Porque não tínhamos juízo…
Resumindo, acho que invejam a nossa felicidade, a nossa sabedoria e a nossa auto-estima.
Será que se nos vissem de pantufas em vez de saltos altos, ou sentados de olhar perdido no nada, achavam que nos estávamos a portar conforme a nossa idade?
Não. Isso não faz parte do nosso projecto de vida.
Hoje é terça-feira. Dia da maldita da sopa de nabiça.
Na nossa mesa reina a animação.
De saltos altos…
Baton carmim…
Cabelo com laca e perfumadas…
Calças de ganga, desbotadas…
Lenço no pescoço com muito charme.
Apaixonados? Por que não?
Resumindo:
VIVOS.

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