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TROCA DE SONHOS














Sonho sonhos ousados sonhos estranhos
Medonhos e abusados
Meus sonhos sonhados em sonos passados
Entram em teus sonhos
E deles se apoderam
Assim teus sonhos sonhados não são teus
São apoderados
Mas quando meus sonhos apoderam os teus
Meus sonhos passam a ser os teus sonhos sonhados
E se meus sonhos são teus
Meus sonhos é que estão apoderados
Nas noites em que meus sonhos não sonham
Porque sonho é para ser sonhado
Sonho teus sonhos e deles me apodero
Tornando teus sonhos sonhos meus
E meus sonhos sonhos teus
Por assim serem sonhados
A verdade robusta que não me assusta
Na qual não custa acreditar
É que a troca de meus sonhos pelos sonhos teus
e de teus sonhos pelos sonhos meus
é nada mais do que um sonho bom
um sonho bom de sonhar!

Inspirado na história de alguém que se deu bem















Resolvi me deixar
E me abandonando
Me encontrar mudando

Meu novo eu diferente do antigo
Eu encontrei dentro de mim mesmo
Vasculhando no mais intimo do eu deixado de lado
Onde o novo estava sobrando

Quando comecei a escrever este texto
Eu ainda era o eu antigo
Agora que sou um eu novo não consigo
Concluir o que estava escrevendo
Porque o novo eu não sabe
O que o velho estava pensando

A QUEDA FINAL












Caiu porque estava podre
Como um fruto que, maduro,
Caiu pelo tempo passado.

Não aproveitou as oportunidades
Que a vida lhe deu,
Os momentos certos e precisos.

Foi como se lhe faltasse sensibilidade
Para o entendimento
Do tempo.

Depois que lhe fez bater a cabeça a escuridão,
Nos muros perdidos,
E cair nos buracos profundos,

Voltou para, em vão,
Tentar acender as luzes.

(publicado no livro A NOVA POESIA BRASILEIRA,
volume I, Editora Shogun Arte, 1983)

A Pedra... José Cardoso Filho


Eu gostava de ir para a pedra em frente ao campo de futebol. Gostava de ir sozinho. Sentava, olhava "pra" frente, ajeitava o casaco porque sempre fazia frio, e conseguia ver coisas que não via dos outros lugares do colégio. Não em termos de distancia, pois o que eu olhava estava muito perto de mim, embora não estivesse ali. Daquela pedra eu via minha casa, meu quarto, minha mãe, minha bicicleta abandonada na garagem há mais de cinco anos, e minha cachorrinha que morrera trés anos antes. Eu via coisas e pessoas das quais eu tinha saudades, coisas e pessoas que estavam longe sem sair de dentro de mim. Alguém vai indagar se não eram alucinações. Não, eu nunca usei drogas alucinógenas. Gostava de fumar cigarros Minister. Ainda deve ter restos de Minister no local se é que a chuvas não levaram. Minhas guimbas. É que aquela pedra era um lugar encantado, mágico, estranho, cheio de diferenças. Ali eu via o Mundo e o Mundo não me via. Podia ser eu mesmo, uma pessoa frágil, com medo de ser dominado pelo sistema. Eu e meus medos. Eu e minhas verdades, que só agora eu tenho coragem de contar e de enfrentar. Um dia eu esqueci o casaco dentro da pedra. No outro dia, pela manhã, bem cedo, fui buscá-lo. Estava duro, coberto de gelo fino. Bati, parte derreteu, parte se quebrou como se fosse vidro. No meu último dia no colégio, em 1972, eu esqueci um pedaço de mim na pedra e fui hoje buscar. Quarenta anos depois. Estava triste, encolhido, dentro da pedra, coberto de gelo fino. Me peguei, me balancei, quebrei o gelo como se fosse vidro. E percebi que estava vivo. Meu pedaço estava vivo, sobrevivera na pedra, fazendo dela morada por todo esse tempo passado. Aqueci meu pedaço, lhe falei palavras de carinho no ouvido e pedi que voltasse a viver em mim. E ele veio. E disse que nesses anos ali passados, de lá da pedra, viu centenas de outros pedaços de pessoas vagando tristes e esquecidas, como zumbis, como almas penadas, pelas estradas e jardins, pelo campo de futebol, abandonadas pelos seus donos. Quem sabe, lendo esse texto de alguém que se resgatou, as pessoas que se deixaram no colégio voltem para apanhar seus pedaços, se encontrarem e serem, finalmente, felizes e completos. A pedra...

Meu tempo... José Cardoso Filho

Regulo meu tempo com o tempo das passagens e das paragens
O tempo da Lua que sai de tarde e entra pela noite
O tempo das andorinhas e dos morcegos que voltam quando a Lua sai deixando o horizonte com suas marcas e formas voadoras
O tempo das ondas do mar que vão e voltam em minutos
Para não cansar as espumas
Regulo meu tempo com o tempo do trem
Aquele trem enorme que cortava a cidade de minha infância
Cheio de açúcar em seus vinte vagões infindáveis
E que hoje deixou de calhar e de açucarar o vento com seu cheiro de mel de engenho
Regulo meu tempo com as meninas de azul e branco
Que acontecem e voltam da escola
Sorrindo na calçada da praça em frente a minha casa
Falando de meninos bonitos para os quais vão olhar com olhar de pedidos irrecusáveis
Regulo meu tempo
Com o caju amarelo que pende do galho
Ameaçando cair com sua brandura travosa
No chão que fora de cajus vermelhos no verão de ontem
Regulo meu tempo
Para não deixar me regular...

Para a boca da mulher que eu amo... José Cardoso da Cunha Filho









Tua boca esses lábios carnudos de vermelho natural
São um convite permanente ao beijo
Tua boca insinua arrepios de toque ao mero olhar
E minha coluna se arreganha de esperas
De uma língua depravadamente louca que vá e volte
E fale a língua de todas as línguas numa só
Pororoquinhas de línguas doces e selvagens
Tua boca que deposita mel em minha boca
Faz cocegas em minha gengivas frêmitas no frisson
Tua boca com perfume de hortelã e tutti frutti
Me viaja todas as viagens todas as noites todas as manhãs
E todas as manhas que um apaixonado requer
Tua boca que chega em todos os lugares
Escondidos ou expostos meus oceanos minhas montanhas meu céu noturno de luas e estrelas dançantes
Tua boca que desvenda os labirintos de meu corpo e vez ou outra se encontra espontânea com a minha boca operaria da mesma forma trabalhando o amor
Tua boca que solta gritos e gemidos não aflitos ali contidos
Tua boca que quando não me preenche se preenche de mim
Em miados e grunhidos de satisfação vagida
Tua boca que sem começo não tem fim
Tua boca que até silente me fala de um grande e enorme amor
Tua boca...

Coisas de um casal... José Cardoso Filho









Tem muita coisa que gostaria de dizer
mas não sei falar
tem muita coisa que gostaria de não dizer
mas não sei calar
tem muita coisa nova
muita coisa antiga
que precisa ser lembrada
ou
simplesmente esquecida

Tem muita coisa
que idade e sofrimento trouxeram
ou
bons momentos vividos deixaram
tem coisas de fatos que já eram
tem coisas de sonhos que ficaram

Tem nada que virou tudo
tem tudo que virou nada
tem muita coisa que precisa ser dita
não com a velha mágoa
nos sótãos da mente guardada
que somente agride e fere
quando para esconder verdades
ressurge e grita

Tem muita coisa que precisa ser dita
com o carinho
da boca dos olhos da pele

Coisa de bicho da noite e paixão
que sabe falar baixinho
que sabe falar calado
que sabe trocar por amor quente
o mal humor mais gelado

Tem muita coisa que precisa ser dita
de mim para você e de você para mim
muita coisa boa
muita coisa ruim
muita coisa a toa
muita coisa assim

De você para você de mim para mim
coisas de um tempo no qual havia tempo

Mas
é preciso falar de tudo
de coisas que não têm graça quando feitas
apenas por ser obrigado
e de coisas como perder a graça por fazer
e não receber nem um simples obrigado

Coisas para serem ditas de frente
coisas para serem deixadas de lado
coisas
apenas coisas
de um casal inconformado.