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Ébony and Alvory















Ébano da tua pele. Meu Marfim
Passo o dedo no teu rosto
Tua cor pega em mim
Minha palidez
Misturada ao teu jambês
Ressoa o sino dos escondidos
Dos atrevidos
Alquimia, fantasia
Perdemos o tempo
Cheiro de mar, falta de ar
Sons do âmago
Palavras de esquina
O Mundo pára dentro de mim
Misturam-se Ébano e Marfim.

Luta nossa luta... Rosely Maria Selaro


















Disseram-me. Não ama nada e ninguém.
Anda com olhos ao alto
Não suportei.
Baixei a guarda
Dei de comer meu coração
Aos mendigos

Disseram-me. Não te mistures
Eu entrei dentro deles
E foi sorte! Me achei
Naquelas mazelas
Crianças murchas
Homens opacos
Mulheres quirelas

Disseram-me. Aposta no Poder
Não apostei
Mesmo assim devastaram tudo
Eu constatei
Farrapos eu embrulhei.

Levanto os olhos e conclamo!
Luta, esta luta é tua
Minha, de Uma Nação Inteira
Acredita na verdade do que não tem
Porque pobre dele é manipulado
Acredita e se ajoelha diante da mentira
Dos desgraçados que tudo roubam
Que tudo podem
Que tudo tem.

Madrugada...

















Ferve. O dia passou.
Hora da tinta do vinho
Do sexo, do chá de hortelã.
A noite liberta desejos
Guarda falsos amores
Redime os pecadores.
Madrugada.
Dou asas a santa. A danada
Madrugada. Deixa o mundo girar.
Amanhece. O banho tira o ranço
Os odores. Seqüestra a libido. Todas as cores.
Madrugada
De novo a pura, a safada
Libertina. Nas esquinas. Nas estradas
Espalho-as. Às gargalhadas.
De manhã me componho.
Por baixo. Madrugada
Beata. Depravada.
Luz / Escuridão.
Têm o benefício do chá com torradas
Do boteco, um lamento e um samba-canção.
Ninguém sabe quem sou!
Ninguém sabe onde vou!
A casa parada.
Livre! Madrugada.

ELA... Rosely maria Selaro


Está aí mais um dia das mães e eu já não a tenho. Pela braveza dela não sei se virou estrela, se não virou nada, se habita outros mundos e evolui por lá. Só sei que ouvi que “saudade é o amor que fica”. Belíssimo.

Mas pé no chão mesmo, não tem mais nhoque, arroz doce, sagú de vinho, aquela carne de panela que só ela sabia fazer. E o feijão então? Até salada de chuchu na mão dela criava gosto.

Dificuldades de conviver? Muitas. Todas. Mas esse “não ti esqueço” agarra no meu pé e não tem porto, não tem porta e muitas vezes não sei pra onde voltar.

Ela era meu bem e meu mal. Uma visionária que sabia que só o estudo acadêmico era a grande herança que podia me deixar. E não poupou esforços.

Mas era tirana no seu amor implícito. Não dizia – “vá com Deus” (só pensava), e como é que eu ia saber? Não me beijava, nem me chamava de minha filha, mas me amava. Era dura como pedra, mãe sem melação, que eu ainda aprendo a viver sem, mas eu burilei esse carinho nunca declarado.

Às vezes agarro meu filho de 22 anos e aperto e beijo e ele se esquiva, afinal ele é um homem! A menina é uma princesa e me pergunto – eu é que fiz isto?

Meus filhos são a minha melhor parte.

Domingo levo pra ela aquelas flores que odeio e deixo lá prô sol queimar e meu coração volta em cinzas.

O que não tem remédio remediado está. Mas o que faço? – E o nhoque, o sagú, a carne de panela, e o feijão então?

Reinvento a vida sem ela. Ela está em mim.

NOVAMENTE... Rosely Maria Selaro













Fiz-me talhada nas rosas.
Extraí dos ares, dos mares
o fluido que pariu um ser perfeito.
Energias estelares esculpiram
meu rosto, meu corpo, meu eu.
Fiz-me de novo. Tudo novamente.
Já não tenho labirintos, meandros, porões.
Estou nascida. Estou ungida.
Estou liberta!

TUA... Rosely Maria Selaro













Tua, nua, inerte.
Tuas mãos incandescendo meus espaços.
Tua boca entregue aos meus cantos luz.
Derramada na tua força
Ti ofereço meu néctar.
A teu gosto,
A teu tempo,
Do teu jeito,
Como queres.
Respiras ofegante
Me percorres por dentro
Neste momento, somos um.

SINGULAR... Rosely Maria Selaro








Das tempestades porque passei salvei a força.
Das dores que me doeram ficaram os calos.
Do frio que senti compreendi o afago.
Das ofensas que recebi percebi a palavra.
Das batalhas que travei e das mortes que
engoli escolhi a vida e fui refinando,
polindo minhas carnes no esmeril.
Plantei minhas mazelas e delas nasceu m'alma.
Tão pura, tão alva! Floriu numa manhã de abril, orvalhada.
Era sim, minha alma e eu quis ofertá-la.
Não escolhi um herói, um deus!
Foste tu o escolhido! Onde estavas?
Perdeste o singular!

Panos de bunda... Rosely Maria Selaro










Não me roube a palavra. Não respondo por mim.
Viro pomba-gira. Ela é pedaço de mim.
Queres roubar, dou-te meu asco,
meu naco até meus panos de bunda.
Dou-te amor verdadeiro, todo meu destempero
e tudo, tudo que há. Não me roube o terror,
o torpor, o sabor, o tesão que só a palavra me dá.
Se te atreves ti mato, me mato,
não vivo sem ela, sou dela, ela é de mim.
Rouba-me a saudade e escreve na
minha margem uma frase daquelas:
Ai Saudade!
Quantas letras preciso, quantas palavras, quantas frases.
Sem palavras como definir a ausência
dessa presença que me rouba a vontade?
Não, por favor, não me roube a palavra,
com ela ataco, defendo, encho um vale de lágrima.
O lamento também canto com a palavra.
Não, deixa-a comigo, suporto todo castigo.
Onde está meu amor-amigo?
Eu sei, está dentro da minha palavra.

Noite virada... Rosely Maria Selaro











Na virada da noite ela partia. Não era noite.
Não era dia. Era o branco do olho. Maresia.
Deixava nele seus seios rosáceos.
Deixava dentes, ancas e os pequenos pés.
Partia claudicante, só pedaços, na noite fria.
Mas voltava quando passava o dia.
Ele esperava pela amante e seus pedaços devolvia.
O quebra cabeça refazia. Eles se amavam, se amavam,
rolavam no mundo gargalhando, gargalhando!
Na virada da noite, claudicante,
sem os seios rosáceos, novamente ela partia.

És em mim... Rosely Maria Selaro









És em mim.
Amanhece e me dou conta de que és em mim. As vicissitudes são quase banais. Das coisas impossíveis faço oportunidades se penso que estás em mim. Faço da ofensa motivo pra refletir e penso que se és em mim sou forte, porque onde quer que estejas estou também em ti. No teu peito, na tua boca e tomo teu corpo, não como posse, mas como bênção para que realizes o que há em ti. A essência dos amantes não têm rebarbas. Não têm arestas. São pilares. Se sustentam. São canções. São noturnos de Chopin. Nem sempre isto foi assim... Quando não eras em mim os grilhões da liberdade desnorteavam o que tu norteias e amanhecer era metade de mim. Prisioneira deste amor? Não. Merecimento. Por séculos te tiraram de mim. Não houve luta para que voltasses. Sabíamos do tempo, do comprometimento, do intangível, do insuportável. Passou. Sou em ti, és em mim. Sucumbiu a morte porque nada pode se estou em ti e tu estás em mim.
Rosely Maria Selaro
23.3.12 – 1h7min

Por que vieste?... Rosely Maria Selaro


Trouxeste teu corpo e não tua alma.
Meus pelos foram teus e minha penugem não quiseste.
Abarcaste tudo. Sim. Talvez. Porvir.
Tiveste na delicadeza a fragilidade.
Pisaste o único fio do meu prumo.
O rumo é tão pouco e por que vieste
Sabotar anjos meus que se foram contigo
Barganhar demônios teus que deixaste comigo.
Por que engendras uma cantiga tão sem destino?
Presença pouca faz muro de arrimo
E o vendaval cospe escassos amores
Esburaca cantos, aumenta temores
Foste barquinho de papel em mar revolto.
Sopraste meu último esforço.
Teu beijo amargo. Gosto da partida.
Por que vieste?

Paixão... Rosely Maria Selaro



Se algum dia roubarem sua paixão, seu amor, seu bem querer, seu amor platônico, não se sinta roubado. Não se dê direitos, porque você não os tem. É a lei do coração e o máximo a fazer é pegar o seu bornal e ir chorar baixinho lá longe e tomar qualquer remédio. Pra dormir, para esquecer ou fazer o melhor. Tentar esquecer.

Sentimentos de paixão não têm ética, não têm justiça, não têm. Porque não se obriga ninguém a querer ninguém. Não se pode lutar contra isso. Você pode brigar, xingar, matar, pode tudo, mas lhe afirmo, não vai adiantar. É lamentável, é doloroso, é cruel, mas é a pura, nua e crua verdade. Não há roubo nas coisas da paixão. Não se rouba coração. Acontece. E se acontece, não há vencidos nem vencedores. É o acaso. Ou estava escrito nas estrelas.

Tome seu rumo, levante a cabeça, não atormente ninguém, mesmo que você fique sem eixo, sem prumo e totalmente atordoado. Vai passar e você vai se apaixonar outra vez. Sentimentos de perda, de rancor, de vingança não levam a nada. Você só perde tempo. Há coisas na vida contra as quais não se pode lutar, porque todas as armas são vãs. Ninguém se apaixona porque quer e ninguém obriga ninguém a se apaixonar.

Se paixão tivesse ética, justiça, moral, não seria paixão. Seria razão. ( Rosely Maria Selaro)