A rosa, o piano e o poeta... Francisco Valverde Arsénio










É tímida, silenciosa, gosta de pássaros e ama secretamente um poeta. Hoje, está vestida de branco em contraste com o verde preguiçoso desta primavera. Não gosta de espelhos mas pinta os olhos e os lábios no reflexo de si. Faz caminhadas ao entardecer e mora junto do mar. À noite, senta-se na espreguiçadeira branca que tem um fino colchão de espuma amarelo e contempla as estrelas enquanto estas tagarelam umas com as outras. O timbre da voz quase se confunde com o brilho dos cristais de gelo que inundam o quintal quando chove e gosta de jazz. Tem o roupeiro cheio de vestidos de algodão branco a que dá vida em todas as rotinas diárias, gosta de dançar e escrever cartas sem endereço.
O poeta escreve um eterno poema nunca acabado. Lembra-se dela, escreve mais um verso. De tempos-a-tempos, completa uma estrofe e recorda o mar alto e as noites solitárias em que os olhos não tinham pontos de referência.
Ela tem um jardim composto por mil flores, mil árvores, mil recantos. Tem muitas janelas e muito céu, tem cheiros que entram e saem do quintal. Olha a água que se revolve no outro lado do muro, olha o mar… perde-se no mar. Tem um piano e por cima das teclas coloca diariamente uma rosa, tem os olhos castanhos e lábios com sabor a maresia. Tem um caderno com rabiscos de notas musicais que o vento que entra pela janela vai folheando. Tem árvores com ninhos e grilos que cantam ao pôr-do-sol.
O poeta um dia embarcou e nunca completou o poema, perdeu as rimas numa tarde sem tempo no pontão do cais. Navega agora perdido das gaivotas. Não sabe pintar mas lembra-se constantemente da cor dos olhos dela, dos vestidos de algodão branco e do cheiro a madressilva dos seus cabelos.
Ela desenha rosas azuis, brancas e da cor da saudade que lhe invade a alma, bebe água fresca e debruça-se numa das janelas. É jovem e quase consegue alcançar as ondas quando estende os braços. Ao largo, navegam barcos e num deles o poeta tenta juntar palavras. Ela sopra versos e ordena ao vento que não perca a morada. Volta ao piano e segura a rosa que cheira a momentos, a fracções do tempo, a encanto, a paixão.
O sol deita-se para lá da proa do navio e o poeta aperta os braços em jeito de um abraço, deixa que os olhos acompanhem o sono do sol e sente o vento no rosto, e tem cheiro a rosas, a rosas azuis, brancas… ouve os acordes dum piano por entre as primeiras estrelas, inspira e abre o caderno. Chegaram as palavras que faltavam para completar o poema.

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