Um copo de vinho e uma carta vazia... Francisco Valverde Arsénio










O vento amainou um pouco, a chuva tão desejada também rumou a outros lugares mas ainda estava escuro, as nuvens deixaram a porta aberta e ameaçavam voltar.

Foi à cozinha e encheu um copo de vinho, bebeu-o quase de um fôlego e encheu-o novamente. O vinho tinto tinha um gosto adocicado, era de uma reserva e tinha-o deixado em cima da bancada para permanecer à temperatura ambiente. Pegou no copo, subiu as escadas e ficou junto à porta do quarto, espreitando-a enquanto ela se vestia. Tinha uma admiração exacerbada por ela e olhava-a enquanto se pintava em frente do espelho… ia colocando o rímel negro que lhe alongava as pestanas e fazia com que os seus olhos castanhos se tornassem maiores, mais brilhantes, soberbos; depois pintou os lábios de rosa e deu-lhes brilho com um produto qualquer, ele não sabia os nomes dos frascos que enchiam quase por completo a cómoda. Aquele toque de brilho nos lábios faziam-no desejá-la, apetecia-lhe beijá-la, queria sempre beijá-la, mas ela nem sempre anuía aos seus desejos, não queria estragar o trabalho efectuado. Olhava-a e bebeu mais um gole de vinho.

Ela sentou-se no primeiro degrau da escada, não tinha os lábios pintados nem as pestanas com rímel, não tinha os olhos tão alongados. Fechou as mãos e apertou os dedos, uma lágrima caminhava pelo rosto e ficou com um nó na garganta. Apertou mais os dedos, havia palavras por dizer, abraços para dar, beijos ainda por trocar. Havia lembranças, nostalgia, vontade de poder arrancar os ponteiros do relógio e colocá-los na hora da partida, havia saudades, muitas saudades.

Subiu as escadas e entrou no quarto. Por cima do roupeiro havia uma caixa de sapatos onde guardava recordações e retirou um envelope de cor azul. Sentou-se na cama e os dedos tremiam-lhe quando tirou a folha de papel de dentro do envelope. Olhou para a janela e tentou aprisionar nos olhos embaciados toda a luz que lhe queria fugir. Desdobrou a folha, percorreu as palavras e há frases que não lê mentalmente, di-las em voz rouca: «…agora que me vês apenas por vogais e consoantes, quero dizer-te que me faltou a coragem para te dizer olhos nos olhos o quanto te amo. Sempre que procurei dizer-to algo em mim me atava a garganta, talvez por duvidar se o mesmo se passava contigo. Sim, agora que me lês, não retires o sorriso que só tu tens, mantém-te assim, linda, és digna de ficar imortalizada pelos melhores pintores. Ah!!! Como adoro saber-te a sorrir…» Pousou a carta em cima da cama e foi à cozinha. Em cima da bancada estava a garrafa de vinho, havia sempre uma garrafa de vinho em cima da bancada. Encheu um copo e bebeu-o sofregamente, voltou a enchê-lo e dirigiu-se para o quarto. Pousou o copo em cima da mesa-de-cabeceira e continuou a ler a carta: «… talvez te apeteça um copo de vinho, vá, vai beber um copo, sabes onde está aquela reserva, bebe, bebe o primeiro de rompante, o segundo sim, é para saborear. Lembras-te de quando nos sentávamos na escada e ficávamos calados enquanto o vinho ia desaparecendo? Deves estar a dizer que sim com a cabeça e a morder o lábio, eu sei que fazes sempre isso quando ficas nervosa, como também sei que queres saber porque digo estas coisas, porque resolvi deixar-te esta carta. Fomos felizes, sim, fomos felizes na nossa diversidade, mas tivemos de seguir caminhos diferentes. Prefiro perder-te a ter-te sem te ter, lembras-te desta frase?». Pegou no copo e foi até à janela. As nuvens já tinham partido e não havia vento, olhou-o mas não bebeu o resto do vinho, correu para o outro lado da cama e pegou no papel. Virou-o uma, duas, três, quatro vezes… vezes sem conta, até que se apercebeu de que a carta estava vazia, não havia letras formando palavras, quanto mais olhava maior era a brancura do papel, e no entanto sabia-o cheio. Fechou as mãos e apertou os dedos. «Já te perdi uma e outra vez», pensou em voz alta, «e recuperei-te. Continuo a ver o meu corpo junto do teu, toco-te, sinto o teu perfume. Já me abandonei em ti nas noites frias, nas noites de chuva, nas noites de vento. Agora vejo-te aqui numa folha de papel, vazia de letras. Promete-me que regressas, promete-me que não partes…»

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