Bate a porta ao saíres... Ana Fonseca da Luz











“Se tu realmente me amas, eu serei essa esperança que jamais irá morrer”. Percebes o que quero dizer com isto ? Eu também não. Mas soa-me bem. Soa-me a verso de canção romântica e tu sabes que eu nunca fui dada a grandes romances. Sempre preferi as coisas práticas. Sempre fui apologista de amores curtos e efémeros, daqueles em que ninguém sai magoado e que só duram uma estação, de preferência uma Primavera, talvez um Verão…
Não devias ter mostrado essa cara de espanto, quando acabei tudo contigo. Nunca te prometi nada e nunca te pedi nada. Gostava da tua companhia, é certo, mas gostava da tua, como já gostei de outras. O amor não me diz nada. Prefiro uma grande amizade. Prefiro uma noite de amor sem consequências e um beijo na testa, ao despedir, de manhã. Não, não vale a pena mostrares essa cara de espanto.
Há quantos anos me conheces? Há muitos. Quantos romances já me conheceste? Muitos. Alguma vez me viste chorar por algum homem? Nunca. Mas também nunca me ouviste dizer que te amava ou que ia ser para sempre. Sempre te disse que ia ser até que durasse. E comigo, as amizades são para sempre, os amores são só até um dia. Até ao dia em que o homem com quem estou já não me diga nada, já não me surpreenda. E tu já há muito que não me dizes nada. As rosas que me ofereces, todas as semanas, já não têm cheiro e os teus beijos sabem-me a amargo. Está bem. Acredito que gostes de mim. Mas não devias. Devias guardar esse sentimento para quem o mereça, para quem goste de amores “até que a morte nos separe”. Não gastes esses sentimentos comigo.
Não consegues ser só meu amigo? É pena. Gostava de conservar a tua amizade. Gosto de conversar contigo. Gostamos das mesmas músicas. Ambos somos doidos por Mozart, ambos gostamos de filmes a preto e branco, ambos gostamos da praia, ao fim da tarde. E depois? Eu também gosto muito do nosso gato e ele de mim e nem por isso estamos a pensar em casar. Percebes o que te quero dizer?
Não, não te quero magoar. Só quero que percebas que o que é muito importante para ti, para mim tem pouca importância. Sou insensível? Não, sou apenas realista. O amor é uma quimera. É isso, é apenas um sonho. Dura enquanto estamos adormecidos. Depois, acordamos e vemos que era apenas um sonho. Não, por amor de Deus, não chores! Não suporto ver um homem chorar. Enerva-me. Um homem só deve chorar quando perde o pai, a mãe ou um filho. De resto, deve enfrentar as coisas com a cabeça erguida. Não sejas fraco. Não me desiludas mais … já chega.
Vais-te embora? Podes ficar para jantar. Vais só depois. Fica. Fazes-me companhia mais este serão… Pronto, se queres, vai. Passas amanhã, para levares as tuas coisas? Também, tens cá tão poucas coisas!… Dois ou três CDs, uma escova de dentes pronta para ir para o lixo, o cachecol que te ofereci este Natal e o nosso gato. Deixa o gato. Sabes que o adoro e, além disso, sabes perfeitamente que ele gosta muito mais de mim do que de ti. Deixas? Óptimo! És um querido!
Já saíste. Bateste a porta com força. Deixo finalmente cair o pano. Caio no sofá e choro. Este gosto não hei-de dar a nenhum homem. As lágrimas são como cartas confidenciais. Só dizem respeito a quem as recebe.
Outro capítulo se encerrou na minha vida. Há que virar a página deste livro. Limpo as lágrimas e ponho no DVD, pela milésima vez, um filme do Vasco Santana:
Palerma… amores há muitos!…

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